Nova tipografia: Capsa
Julho 18, 2008, 9:49 am
Filed under: TypeDesign

A DSType orgulha-se de apresentar a mais recente família tipográfica Capsa. Sem mais delongas, aqui está o texto, publicado nos Cadernos de Tipografia Nº9 e no PDF que serve de catálogo a esta tipografia:

 

Capsa. Nem Génesis, nem Eureka!

O processo tipográfico, embora frequentemente relacionado com uma determinada visão artística do mundo, raramente se compatibiliza com as diversas apreciações românticas de índole criacionista ou mesmo com surtos de inspiração súbita, mais ou menos fenomenais. A eureka! tipográfica apresenta-se-nos, sobretudo, sustentada na pesquisa histórica (tipográfica ou não), crítica e construtiva, com a assumpção de propósitos muito bem definidos.

Um novo tipo de letra nasce sabendo que não é, e provavelmente jamais será, passível de ser considerado novo, pelo que parece mais interessante, como princípio de trabalho, clarificar o objectivo de um novo tipo antes ainda do seu desenvolvimento enquanto desenho. 

O caso que apresento, reporta-se a um tipo de letra desenhado para ser utilizado como tipo de texto para livro, assumindo uma fluidez muito maior que um tipo desenhado para, por exemplo, uma publicação periódica, como um jornal. O livro apresenta características únicas, uma linearidade muito própria e enquanto interface coloca-se perante o leitor de um modo conivente, íntimo, quase confidente. O tipo de letra deve exaltar esta interface, mais que interferir na mesma.

Compreender as necessidades do texto de livro, permite-nos partir para uma observação cuidada de alguns livros publicados em tipos romanos e destinados ao grande público, datados de finais do século XVI e início do século XVII. Neste capítulo encontram-se referenciados historicamente os tipos desenhados por Claude Garamond (1480-1561) e celebrizados pelo magnífico impressor Cristoffel Plantin (1520-1589) e posteriormente por Balthasar I Moretus (1574-1641). A imagem apresentada refere-se a um Rituale Romanum impresso por Plantin-Moretus, datado de 1611, onde é possível perceber a fluidez e vigor do texto, assim como a utilização de ligaduras que, mais do que facilitarem a leitura, são relevantes do ponto de vista estritamente tipográfico, ou se preferir-mos, estético.

A análise dos impressos destas páginas revelou-se extremamente produtiva, não somente pela possibilidade de observar a capacidade e qualidade de impressão, mas sobretudo pela sábia utilização e construção do bloco tipográfico, coma utilização sistemática do ‘s’ oldstyle.

Procedendo a uma comparação muito livre do texto impresso por Plantin-Moretus, com as matrizes tipográficas de diversos períodos da tipografia francófona, trazidas até aos nossos dias na obra Épreuves générales des caractères qui se trouvent chez Claude Lamesle, impresso em Paris, em 1742 (ou na versão facsimile da primeira edição, editada por Menno Hertzberger & Co em 1965, denominada por The type-Specimens of Claude Lamesle), o trabalho tipográfico ganhou uma vida muito própria, com uma mistura saudável de tipografias barrocas com tipografias pré-modernas.

O Saint Augustin Oeil Ordinaire é, claramente, um tipo garamondiano, enquanto o Gros Romain Ordinaire revela um carácter mais moderno, embora permanecendo com certas características geraldas. O seu interesse, mais que o próprio desenho, como veremos mais adiante, consiste na assimetria provocada pelos meios de impressão, que embora evoluídos para a época, permitem observar um enorme conjunto de imperfeições, sobretudo se atentarmos nos mesmos caracteres em diversas linhas de texto.

Estas idiossincrasias naturais do texto impresso são a pedra de toque da tipografia que vos apresento, assim como a supressão máxima de elementos rectilíneos, permitindo construir um tipo proporcional, altamente legível, historicamente referenciável e com elevado ritmo tipográfico, algo que penso ser apreciável em tipos de letra para livro. 

A familía tipográfica Capsa* sustenta-se na trindade tipográfica Roman, Itálico e Bold, ambas contendo versões SmallCaps incorporadas no mapa de caracteres. Todas as versões são acompanhadas por um diverso número de ligaduras tipográficas que permitem levar a composição do texto para uma outra dimensão. Capsa não pretende ser um revival tipográfico, antes a análise de uma plêiade de tipos históricos e uma dissertação tipográfica acerca da sua (im)provável unidade.

O itálico apresenta inclinações distintas nas caixas alta e baixa, cuja diferença de 8 graus (10º na caixa alta e 18º na caixa baixa), remetem para uma apreciação histórica perfeitamente observável no Cicero Italique Gros Oeil, Numero XXXV. O propósito desta diferença consiste na criação de ritmos e no incremento da fluidez, tal como havia sido enunciado pelos scriptorium italianos do primeiro quartel do século XVI, numa clara edificação pós-renascentista e mesmo caligráfica.

Esta família tipográfica está disponível nas versões, Roman, Italic, Bold, Swashes, Vignettes e Patterns. Capsa é uma tipografia desenhada por Dino dos Santos para DSType, 2008 ©.


1 Comentário so far
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Muito bom trabalho, Dino.
As ligaturas ficaram muito boas, as letras em itálico também (o /g/!).
Nessa última imagem alguns espacejamentos ficaram um pouco estranhos, como o /phy/ de Calligraphy, mas nesse momento eu só consigo olhar pro desenho que você fez do esboço das letras. Bonito demais essa forma de letras condensadas.
Parabéns.

Comentar por Vicente Pessôa




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